Por que razão o corset volta a estar na moda?
A presença nos guarda-roupas atuais de uma peça de vestuário do século XIX sugere que a imagem do corset ainda ressoa, de certa forma, na nossa sociedade, ainda que o seu significado tenha evoluído para assumir um cariz mais sensual e romântico, muito apreciado pelas mulheres, com um toque retro.
Nos anos 1930, a moda volta a colocar a cintura no centro das atenções, graças a cortes elaborados ou a combinações de cores arrojadas. Ao longo da década, observa-se uma evolução para uma silhueta mais tridimensional. Isto traduz-se na importância dada à cintura e, mais tarde, aos ombros. O que seria mais indicado do que o corset para realçar as formas femininas redescobertas? Aliás, perto do final dos anos 1930, os corsets flexíveis e os corpetes dos vestidos de noite inserem-se no renascimento vitoriano popularizado por filmes como «E Tudo o Vento Levou» e «Mulherzinhas». A cintura era fina, os ombros largos e a forma geral anunciava a silhueta em ampulheta do «New Look» de 1947.
A partir do final dos anos 1940, os criadores procuram obter, através de cortes engenhosos, enchimentos e entretelas, a mesma silhueta ajustada que era obtida anteriormente com o corset. O exemplo mais marcante é o tailleur «Bar», arquetípico e emblemático, concebido por Dior. Como se para confirmar, uma vez mais, o seu papel neste fenómeno, o corset faz o seu regresso, transformado desta vez em «bustier» e utilizado na maioria dos vestidos de noite do final dos anos 1940 e início dos anos 1950.
A meio dos anos 1950, nota-se uma procura clara por uma moda mais geométrica e arquitetónica. À procura de novas formas, os criadores estudam as peças de vestuário como volumes e experimentam com a cintura, subindo-a, descendo-a ou dissimulando-a completamente.
A meio dos anos 1970, Vivienne Westwood torna-se a primeira criadora do século XX a utilizar o corset na sua forma original, uma vez que Poiret o tinha rejeitado. A sua abordagem, simultaneamente artística e teatral, cria uma tendência nova e vincada na moda contemporânea. A utilização de peças de vestuário históricas, associada a uma perceção única do espírito do tempo, está no centro da sua criação. Os seus corsets do século XVIII conferem às mulheres um sentimento de brilho e de força que não sentiam há muito tempo.
Nos anos 1980, outros criadores seguirão o seu exemplo, mas desta vez utilizando o corset vitoriano do século XIX. Entre as mãos de Jean-Paul Gaultier e de Thierry Mugler, o corset torna-se a armadura da ciber-mulher do final do século XX, saída de um filme de ficção científica.
A partir daí, o corset servirá de base aos criadores para conceber modelos poderosos. As características do corset são estilizadas ou exageradas, ou desaparecem, e apenas a forma é conservada, transformada em armadura de plástico moldado. Os resultados são deslumbrantes. O corset torna-se um «objeto de arte» num sentido novo, claro que artístico, mas também social, quase como uma declaração. Deixando de ser o símbolo da opressão das mulheres, o corset tornou-se um símbolo de emancipação sexual. Os corsets de Gaultier tornam-se emblemáticos quando Madonna usa um durante a sua digressão mundial de 1990. Desde então, o corset é um fetiche de Gaultier e os seus perfumes são vendidos num frasco em forma de corset.
A presença dos corsets nas passarelas não se deve ao acaso. Os corsets de Westwood eram a expressão da sexualidade punk na passarela. Os corsets de Gaultier e de Mugler, semelhantes a armaduras, encarnavam a moda do poder e o culto do corpo da cultura yuppie. E aqui, o corset real coabitava nas passarelas com o corset «fantasma», visível na forma triangular dos anos 1980: uma cintura fina e ombros largos.



